quinta-feira

by pdrpinho

Agora ambos tinham que aguentar todos os intervalos  em que se encontravam na escada e a inevitável reabertura das antiga fratura exposta. Foi ficando difícil.

Já havia passado tanto tempo, os dois haviam crescido, tudo era tão diferente… Ele resolveu pedir desculpas. Num gesto bem jardim de infância, mandou uma carta no recreio pedindo desculpas pelos anos de distância, pela forma como tudo tinha acontecido, por ter sido infantil. O colégio inteiro presenciou o escandaloso abraço que ela lhe deu ao final da aula. Finalmente eles podiam conversar, falar sobre tudo. Mostrar as mil músicas que haviam se acumulado no ipod, conversar sobre o futuro, sobre o vestibular… Dois anos haviam se passado, muita coisa tinha mudado e eles tinham muito o que contar. Ele foi dormir aliviado naquele dia. Agora eles riam juntos de tudo aquilo que havia acontecido, eles eram tão crianças naquela época. Tudo fazia um pouco mais de sentido.

Dois anos se passaram desde o reencontro. Eles não e veêm mais, não por causa de nenhuma briga, mas por causa da vida mesmo. Caminhos diferentes levaram cada um pra um rumo. Apesar de tudo, da distância, dos longos meses sem se ver, tudo ainda continua igual. Os mesmos gostos, as mesmas coincidências. Ele foi visitar ela recentemente. Conversaram sobre como é ser adulto, sobre uma viagem pra europa, sobre os novos amores. Passaram um dia inteiro juntos, com aquele gosto de adolescência no ar, se divertindo como há tempos não faziam. Tudo, tudo, continuava igual.

A fratura não havia sarado. Ela ainda continuava ali, exposta pros dois verem. Só que agora, ela era o tesouro dos dois. Aquilo que tinha feito o que eles eram hoje.  E cada vez que passavam a mão no lugar ferido, com um sorriso lembravam de tudo.
A fratura era um presente.

Lívia, valeu pelos quase seis anos de pura infância bem vivida.