domingo

by pdrpinho

Mesma Rua, Mesma Porta
A chave abriu a porta seguramente trancada. Um cheiro de poeira se sentia no ar. Fazia algum tempo que ninguém entrava ali. Tudo continuava no mesmo lugar. Ele entrou no apartamento, inconscientemente checando cada detalhe, cada janela trancada, cada porta que rangia, cada lençol amassado. A mala ficou num canto, o celular na mesinha, o casaco na cama. Olhou em volta. Silêncio.

Eram esses momentos que ele detestava. Quando a solidão o atingia. Viver sozinho não o incomodava, ele até apreciava a reclusão. Amava a sensação de liberdade, poder acordar tarde. Saía a hora que queria, voltava quando bem entendesse. Não devia satisfação a ninguém. Mas, as vezes ele percebia. Não havia mais ninguém ali. Não, seus livros não sentiam saudades dele. Sua louça ainda estava no mesmíssimo lugar. Sua cama ainda estava desarrumada. Ah, como era bom estar sozinho. Como era bom olhar pros outros – tão perdidos em seus problemas com namoradas, problemas com mães, problemas com irmãos- e sentir que ele era superior a tudo isso. Como era bom ser dono do próprio nariz. Apesar de tudo isso, é difícil voltar pra uma casa vazia. De vez em quando, ele só queria um boa noite. Um puxão de orelha, um abraço apertado.

A mala, jogada num canto, continuaria ali por muito tempo. Não era necessário desfazê-la. Continuaria trancada, com cadeado enferrujado. No espelho, olhou pro lado esquerdo do peito. Talvez sua mala nao fosse a única coisa trancada naquele apartamento.