sexta-feira

by pdrpinho

Amor?

Nessa semana, eu tive a oportunidade de ir na pré-estréia do novo filme de João Jardim, intitulado “Amor?”. Pra quem não sabe, o filme trata de relações amorosas que envolvem algum tipo de violência. O filme é uma mistura de documentário com filme mesmo, o que quer dizer que as histórias são reais, e nem existe texto, só os depoimentos, mas, esses depoimentos são interpretados pelo atores do filme.

A interpretação dos atores é realmente muito boa. Destaque para Julia Lemmertz, que interpreta o papel com perfeição, numa cena muito difícil. Após a exibição do filme, houve um bate-papo com o diretor e a atriz. Foi muito interessante entender a (não) construção do personagem, como o diretor deixou os atores livres pra escolherem, como tinha que parecer real… Enfim, brilhantes atuações.

Mas, eu, como um mero leigo, tive alguns problemas com o filme, conceitualmente.  Achei o filme todo muito bem filmado. Tem umas cenas lindas, lindas mesmo. Cores incríveis, com uma trilha instrumental maravilhosa. Aí você para e lembra que o filme é sobre relações violentas… E alguma coisa não bate muito bem. Sei lá, pessoalmente eu tenho uma agonia de gente que faz filme lindo sobre coisa pesada. Cenas maravilhosas com uma música calma falando de… sangue? Acho que o filme romantiza e talvez normaliza algo que não é nem um pouco romântico, nem normal. Um marido que esfaqueia sua esposa não é algo ok. Não poe o cara pra falar sobre bater na esposa até sangrar com uma iluminação fofinha e “Carinhoso” tocando ao fundo.  Não faz sentido. E se vê muito isso no meio artístico. É uma romantização de coisa horrorosa sem fim. “Que tal fazermos um filme lindo sobre um…estupro”? Realmente não entendo. É como se eu, como fotógrafo, fosse fotografar uma guerra e, ao encontrar um corpo ensanguentado, colocar uma florzinha na mão do morto pra ornar. Ninguém ia achar bonitinho. Vou fazer um filme sobre uma mulher que fica pulando de alegria ao descobrir que tem câncer. Realidade ligou e mandou beijo.

João Jardim falou, ao final do filme, que o filme foi feito pras pessoas se identificarem. “Isso pode acontecer com qualquer pessoa, eu poderia ser aquele cara”. Será? Não é uma identificação com a vítima, é uma identificação com o autor do crime! Acho que o filme falha um pouco nisso. Eu não quero ir assistir um filme e me identificar com o cara que enfiou um revolver na boca da moça. Até porque eu não me identifico, mesmo, em nenhum nível com esse cara. Nunca quis enfiar um revólver na boca de nenhuma namorada. É realmente estranho essa tentativa de identificação… Quando você vai assistir um filme sobre um serial killer, você se identifica com o assassino? Eu não. Nem acho que deveria. O cara tem um problema, não é normal. Quem tem problema com violência doméstica é a mesma coisa. Não é normal, não é ok, não é identificável. É bem diferente de ver um filme sobre uma mulher que se apaixona por um cara que não gosta dela. Isso sim é um tipo comum, isso dá pra se identificar. Mas se identificar com uma mulher que deixa o bebê no berço ao tomar uma overdose pra esquecer o marido violento? Não quero me identificar, tô bem, obrigado.

Desculpa, eu realmente acho uma ofensa às muitas mulheres que sofrem de violência doméstica. Fazer um filme que trate de uma forma leve e bonita uma coisa tão horrorosa que mata (!!!) gente toda hora no Brasil. Vamo sair dessa poesia e acordar pra vida.

O diretor é incrível, eu realmente gosto dele. Tem um olhar magnífico pra cenas normalmente cotidianas. Mas, dessa vez não deu.

A Exibição

Saindo um pouco do filme em si, eu ri por dentro na exibição do filme. Pré-estréia de filme com ator de novela aparecendo. Convite pras dona de casa saírem né? O problema é que esse não é um filme levinho da globo. É um filme pesado, cult, com direito a cena lésbica de sexo e cena agoniante de agulha sendo enfiada na pele. Ou seja, foi todo mundo pra ver a fofa da novela, todo mundo teve que assistir duas lésbicas se pegando. Era divertidíssimo olhar pro lado nessas cenas mais pesadas e ver a cara meio chocada meio indignada das pessoas despreparadas que não sabiam direito o que estavam fazendo ali. Tinha um casal de 80 anos do meu lado (a fofa quase perdeu a dentadura na cena) e teve até mulher que levou a filhinha pequena pra assistir. Afinal, o título do filme era “Amor?”, pouca gente realmente viu o trailer e foi ver um filme sobre violência. A maioria leu Lilia Cabral e foi ver a famosa.

Aí eu fiquei todo ansioso pra hora do debate. Pensei “Ae, vai dar barraco, a velha de oitenta anos vai ficar chocada”. Que decepção. Os atores entraram ao final do filme e essas mesmas pessoas chocadas levantaram pra aplaudir de pé um filme que não entenderam. Todas as perguntas começavam com “Eu queria parabenizar a atriz por uma atuação tão brilhante, me emocionou, quase chorei, posso ser seu amigo, me dá seu telefone, vamo jantar blábláblá globonovelas”. É quase um discovery channel ver como as pessoas se comportam na presença de famosos.  Teve um cara que fez uma pergunta, de mais de 4 minutos, em que ele fala a seguinte frase “O filme me lembra as artes plásticas, começou com traços do expressionismo, passou por van gogh, mas me lembrou mesmo foi Duchamp” DUCHAMP??? O que nesse filme te lembrou Duchamp, fofo? O cara da privada? TEM CERTEZA? Eu só conseguia pensar que se eu fosse um ator, eu ia rir na cara dele, for sure. Porque a galere não consegue ser mais real né? Queria ver alguém levantar a mão e dizer “Meu nome é Edite, eu vim só pra ver a Julia da novela e não entendi nada desse filme locão aí” Aí sim eu ia achar legal, aí sim eu ia me divertir. Ao invés disso, eu fiquei com o pretensioso do Duchamp.

Saco.